Dossiê: a influência da música na moda


Não é segredo para ninguém que canções e melodias interferem nas expressões de comportamento e consumo. Mas como isso se aplica nas tendências e na forma como as pessoas se vestem?
Continue no texto para descobrir mais sobre a influência da música na moda, além de conferir alguns exemplos dessa intervenção ao longo do tempo.
Moda e música: expressão, sentimento e identidade
Segundo o músico e escritor Thedy Corrêa em palestra no TEDxLacador, o que diferencia a humanidade de seres irracionais é o pensamento e a arte. Já a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva aponta em uma conversa sobre o poder que canções têm de acionar em nossos cérebros lembranças e sentimentos, ativando circuitos ligados à parte motora e cognitiva.
Estudos apontam, também, que as emoções estão ligadas ao sistema límbico do cérebro. Responsável pelo controle do aprendizado e da memória, ele é encarregado pelo remapeamento de conexões cerebrais e, em partes, pela capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura de acordo com alguns padrões de experiência.
Assim, a música ganha papel de destaque nas teorias da neuroplasticidade exatamente por criar estímulos mentais, causando comoção e até mesmo manipulação de sentimentos, além de moldar condutas e pensamentos.

Indo mais além, o mestre em comunicação e cultura contemporânea Marcio Ricardo Barbosa, em uma entrevista para a TV Olhos D’água (UEFS), aponta a influência da música na construção do nosso imaginário de desejo de ser no mundo, que molda quem queremos parecer e com quem nos identificamos. Isso necessariamente se traduz na forma como nos portamos, falamos, consumimos e, logicamente, nos vestimos.
Classificada exatamente enquanto a arte de se exprimir por meio dos sons, a música possui, então, influência direta no comportamento do consumidor que usa da moda como meio para atestar a sua identificação com determinado grupo, estilo e momento.
Música e o comportamento do consumidor
Nessa mesma linha, uma pesquisa publicada na Revista Científica de Ciências Aplicadas da FAIP aponta a ligação entre moda, música e identidade. Segundo os autores, “moda e música são instrumentos utilizados com o objetivo de comunicar e expressar” e, nesse sentido, podem influenciar na experiência e decisão de compra.
Isso porque, tanto a música ambiente tocada em estabelecimentos quanto as peças usadas por cantores, bandas e grupos de sucesso tendem a moldar e marcar o comportamento dos consumidores. Outros fatores, como condição econômica e estilo de vida, também têm participação nesse processo.
Outra grande aposta que relaciona os dois mundos passa por quem estilistas e grifes escolhem como influências importantes. Não é incomum vermos collabs entre grandes cantores e marcas de sucesso, gerando objetos de desejo para fãs e admiradores de ambas. Como exemplo dessas junções entre personalidades famosas e marcas com DNA bem definido, podemos citar o caso Adidas + Beyoncé, Bruno Mars + Lacoste e Billie Eilish + Nike.

A influência da música na moda
Mais do que casos isolados, a influência da música na moda pode ser atestada quando analisamos como a estética de ritmos e movimentos musicais tendem a marcar a forma de se vestir de toda uma geração. Por isso, que tal analisar melhor alguns deles?
Rockabilly
A história do rock é marcada pela miscelânea de diversos outros estilos musicais, especialmente os provenientes da cultura negra, como o jazz e o R&B. Porém, foi nos anos 50 que o ritmo começou a tomar as proporções que conhecemos hoje.
Elvis Presley, talvez exatamente por ser melhor aceito pela mídia e pela sociedade da época do que os cantores negros que o antecederam, é conhecido até hoje pela voz marcante e, como não, pelo estilo inesquecível.
Com ele, o topete, ternos brilhantes e com aplicações de strass, camisas de gola alta, jaquetas de couro e sapatos loafer influenciaram a forma de se vestir (mesmo que em versões mais modestas) em todo o mundo.

Movimento hippie
Da mesma forma, com o Woodstock, que aconteceu em 1969, marcou a popularização do movimento hippie e, consequentemente, a utilização de elementos da contracultura na moda.
Nomes como Jimi Hendrix e Janis Joplin são bons exemplos de como era o estilo da época. Calças boca de sino, mix de estampas, vestidos longos, acessórios enormes e texturas como o tricô e o couro são peças-chave da estética que, atualmente, possui variações em uma pegada mais sofisticada, como o boho chic.
Grunge
Algumas décadas depois, o estilo grunge chegou para movimentar a cabeça e o guarda-roupas de jovens por todo o globo. Caracterizado como rock alternativo com origem em Seattle, esteticamente o estilo é caracterizado por uma pegada “anti fashion”, composta por calças jeans surradas, camisetas xadrez, além do bom e velho All Star (sempre com um aspecto mais velho e sujo!).
Kurt Cobain talvez seja o nome mais conhecido do movimento, influenciando também a estética de diversos roqueiros desde os anos 90.
Emo
O estilo emo, também conhecido como emocore ou emotional hardcore, é outra vertente do rock que invadiu lojas e ruas. Com letras e melodias que misturam a tristeza, a revolta e a solidão, bandas como My Chemical Romance, Simple Plan e Fresno embalaram a rotina de jovens que, muito além da música, consumiam peças como os cintos de rebite, as calças justas e a maquiagem carregada.
Para felicidade de alguns, a estética hoje promete conquistar a geração Z, virando trend no TikTok e marcando a volta (e a repaginada) do emo ainda em 2022.
Tropicália
Saindo do rock e pousando diretamente em território nacional, esse talvez seja um dos melhores exemplos da influência da música na moda no Brasil. Mobilização que nasceu no final dos anos 60, para entender o que foi o movimento Tropicália, recomendamos a escuta de um de seus marcos, a música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso.
Promovendo uma verdadeira revolução estética, a Tropicália foi marcada por composições que, de forma debochada e repletas de charadas, protestavam contra os abusos do Regime Militar vigente na época.
Esteticamente, as calças bocas de sino, peças oversized, camisas estampadas e com uma pegada mais indiana tomavam conta dos looks compostos por nomes como Rita Lee e Gilberto Gil.
Hip Hop
Com grande importância política, o Hip Hop é um gênero marcado por letras que denunciam racismo e desigualdade social. Nascido no Bronx no final dos anos 70, esse estilo é marcado por referências ao graffiti e a cenários que escancaram uma violência urbana que, não fosse por suas letras, permaneceria escondida e silenciada.
Esteticamente, a pegada street style ganha destaque nos looks compostos por jaquetas bomber, bonés, bucket hats, colares dourados, além de calças e macacões jeans.
Pop
Seja através das boy e girl bands dos anos 90 ou mesmo de grandes divas como Mariah Carey, Britney Spears, Madonna, Rihanna e Beyoncé, o pop exerce influência na moda ditando tendências que vira e mexe voltam ao radar das fashionistas.
Calças de cintura baixa, boleros, cabelos com cortes mais retos, plataformas, roupas justas e uma vibe mais infantil marcaram por muito tempo a influência de melodias e letras do universo pop no estilo de fãs do ritmo.
K-pop
Febre mundial, o K-pop também já vem marcando o poder de sua influência no mundo da moda. As parcerias com grandes marcas de luxo, como a de G-Dragon com a Chanel ou da Lisa (BlackPink) com a Celine, mostram o grande poder de influência desses artistas no mundo fashion.
Como se não bastasse, a Coreia do Sul ainda é considerada crucial para a disseminação de diversas tendências de moda, skincare e maquiagem.
Além desses, inúmeros outros estilos acabam determinando direta ou indiretamente as escolhas de grupo de pessoas (ou muitos deles). Isso porque, como podemos perceber, a música tem um papel determinante para comportamentos sociais e de consumo, ditando tendências e marcando transformações que podem ser observadas em todo o mundo.
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